“Eu sei o que falta aos jovens de hoje. Uma infância seguida de uma pré-adolescência sob as vistas de um Tio Baltazar. Na verdade, ele não era tio de nenhum dos guris da rua, mas todos o estimavam como tal, na falta de um familiar de melhor reputação. Tio Baltazar, o Velho Balta, não tinha nada de mais. Era um homem sisudo, rabugento, que abusava do seu direito de permanecer calado e ouvindo Belchior, com sua cigarrilha de palha, lendo O Tempo e o Vento e fraseando coisas memoráveis como “todos os não-leitores que conheço parecem ter um cérebro a menos” ou “você precisa levar a vida muito a sério para cometer suicídio”. Inexplicavelmente, nós, os guris da rua, precisávamos da aprovação do Velho Balta. Porque ele era um reprovador nato, e ainda é, se estiver vivo. Um dia, os meninos tiveram a ideia de caçar rolinhas. Estávamos lá, todos nós, com os estilingues em punho, vigiando as árvores do bairro. Quando o mais astuto da turma, que hoje é um ruivo escroto, acertou um pássaro, o Tio Baltazar entrou em ação. Nos reuniu em torno de uma tábua, estirou o corpo do bicho, o desviscerou e nos fez comer os miúdos, ou então chamaria a Sociedade Protetora dos Animais, e aí estaríamos todos ferrados. O ruivo escroto e nós, como cúmplices, quietos, devoramos a rolinha chorando. E quando a vizinha disse que ele estava arrumando incomodação, o velho me sai com “criança não castigada em casa, é castigada na rua”. Aí, o tempo foi passando e o ódio pelo Velho Balta também. Estranho, mas a gente ainda corria atrás das afirmações dele, era jubiloso arrancar uma das suas esparsas palavras, que dirá seus elogios. Aquele senhor desocupado nos ensinou coisas que nossos pais estavam trabalhando demais para nos orientar. Não acossem pássaros, fiquem longe das drogas, não pejorem seus amigos com alcunhas, não dirijam de maneira idiota, usem camisinha, não bebam até cair, não tratem mal as garotas, passem a bola. Se você acertava, recebia uma reverência pública do Velho Balta e ia pra casa todo orgulhoso e peitudo, consagrado pela aprovação do maior exemplo da rua. O Tio Baltazar tinha uma mulher e duas filhas lindas que o amavam porque ele nunca deixou faltar nada, e embora não fosse muito afetivo, sempre tinha uma frase amena de carinho ou correção, e abraços silenciosos de sobra. Ele queria o melhor para todos. E nós, os guris da rua, queríamos ser o Velho Balta ao crescer. Ele era o nosso professor John Keating de A Sociedade dos Poetas Mortos. E quanto mais cedo a gente se deslocasse para a fase adulta, melhor, mais rápido seríamos como ele, menos tempo perderíamos atingindo pássaros inocentes. O Velho Balta, um homem que, mesmo quieto e taciturno, ventilava bons princípios. Mas não era isso, seus valores, que queríamos ter iguais. Mas o respeito. Quando eu crescer, quero ser respeitado como o Tio Baltazar, eu pensava, e aposto que os outros rapazes também. Não sou um grande exemplo, sei disso, e sei também que poucos daquele grupo são grandes líderes. No entanto, somos amados muito mais pelas sombras que não temos do que pelos esporádicos raios solares que iluminam nossos rostos. A gente cresceu sem dirigir bêbado, batalhando grana para as contas a pagar, lendo literatura, sem se suicidar, sem ofender ninguém, sem espezinhar os mais fracos, sem magoar as garotas (o que é bem difícil, num minuto você é o amor da vida delas porque está limpando a privada e no outro é um trouxa manipulador porque quer assistir o show da rodada no ESPN). Naquele tempo, os jovens queriam ser adultos, a ordem era crescer e aí aparecer. Hoje os jovens querem ser jovens, estão conscientes da sua condição privilegiada, muito porque os adultos não conseguem esconder sua inveja – e seja com cremes rejuvenescedores ou carrões importados recomendados pelo Wagner Moura, querem soar eternamente jovens. Ninguém mais quer parecer velho, ninguém quer ter barba ou barriga, cabelos brancos só se idênticos aos daquele ator bonito e gostoso de Hollywood. A maturidade está fora de moda, é “old fashion”, não é “hype”, agora é outra “vibe”, cara. Os jovens teriam mais juventude se passassem menos horas assistindo reality shows sobre gente rica, ou embriagados, ou se comparando no espelho, ou comentando em blogs e facebooks o quanto são “polêmicos” e “ácidos” e “cheios de opiniões”. Ser menos jovem não é perda de tempo, é investimento. Sei por mim, se eu soubesse que fazer trinta era tão bacana, teria feito há séculos. O que falta aos jovens é alguém para querer ser, quando crescer.”